Como explicar o bitcoin às crianças

Como explicar o bitcoin às crianças

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Estamos os dois sentados num banco de um parque num dia bonito.
Eu tenho uma maçã comigo. Eu dou-te a minha maçã.
Agora tu tens a uma maçã e eu já não a tenho. Tenho zero.
Simples, não?
Vamos agora ver o que aconteceu:

Maca
Agora, a minha maçã foi fisicamente colocada na tua mão.
Tu sabes que isso aconteceu. Eu estava lá. Tu estavas lá. Tu tocaste na maçã. Não há dúvida.
Para saber isso, não foi precisa uma uma terceira pessoa para nos ajudar a fazer a transferência. Nós não tivemos que chamar um juiz ou uma testemunha para se sentar connosco no banco e confirmar que a maçã passou de mim para ti.
A maçã é tua! Eu não te posso dar outra outra maçã por que eu não tenho mais nenhuma. A maçã saiu completamente de minha posse. Quando se dá, está dado. Agora, tu tens o controlo absoluto sobre a maçã. Podes agora dá-la a outro amigo, e então esse amigo pode também dá-la para outro amigo e assim por diante.
A isto chama-se uma transação. Neste caso, uma transação feita pessoalmente. Passou de mim para ti. A mesma coisa seria se eu te desse uma uma banana, um livro, uma moeda de um euro, ou uma nota de e euros.
Bem.. acho que estou apressado demais.

De volta às maçãs.

Maca digital

Agora digamos que eu tenho uma maçã digital. Ok. Toma a minha maçã digital.
Não está a ficar interessante?
Como sabes que aquela maçã digital, que era minha, é agora tua, apenas tua? Pensa sobre isso por um segundo.
É mais complicado, certo? Como sabes se eu não enviei aquela maçã para o meu tio anexada num email primeiro? Ou para o teu amigo André? Ou para minha amiga Isabel também?
Terei eu feito umas quantas cópias daquela maçã digital no computador e colocado na internet para milhões de pessoas poderem descarregar? Será possível? Fazer isso seria possível só que, já não seria aquela maçã. Certo?
Então, a pergunta que tem muito valor: como é que eu posso garantir que a maçã digital que eu te enviei é única e que não foi copiada?
Pois… Na verdade, a troca digital é um pouco mais complicada. Enviar maçãs digitais não é a mesma coisa de enviar maçãs de verdade.
Alguns especialistas na ciência da computação deram um nome para este problema: o problema do gasto duplo.
Mas não te preocupes com isso. Tudo que precisas saber é que isso os deixou confusos durante muito tempo… até agora.
Mas vamos tentar encontrar uma solução nós mesmos.


 

Rol

Rol de pagamentos

Talvez essas maçãs digitais precisem ser registadas numa rol de pagamentos. O rol, ou agenda, é um livro onde se registam todas as transações, o que se gasta e o que se recebe, um livro de contabilidade. O livro da razão. Onde fica tudo registado e onde nada deve ser apagado.
Essa agenda, uma vez que seja digital, precisa viver no seu próprio mundo e ter alguém para tomar conta.
Como no jogo ‘War of Warcraft’. Blizzard, os indivíduos que criaram o jogo online, têm uma “agenda digital” de todas as espadas de fogo raras que existem no seu sistema. Então, ótimo, alguém como eles pode ser capaz de manter uma contagem das nossas maçãs digitais. É simples não é?

Incrível – nós resolvemos o problema!

Mais problemas

No entanto, ainda existem problemas:
1) E se um indivíduo do Blizzard criar mais maçãs? Ele podia ter a tentação de adicionar uma ou duas maçãs para o cesto dele, quando quisesse! O que seria uma aldrabice, claro.
2) No mundo digital, as coisas não se passam exatamente como quando nós estávamos naquele banco do parque naquele dia. Lá éramos só eu e tu. Passando pelo Blizzard é como trazer um juiz (uma terceira parte) para validar todas as transações dos bancos de nosso parque. Então como é que eu te posso entregar a minha maçã digital da mesma forma que te entreguei a maçã de verdade?
Existe alguma forma de replicar ‘digitalmente’ as transações do nosso banco do parque somente entre tu e eu? Parece que sim…


 

A solução

Blockchain

E se déssemos essa agenda de pagamentos para toda a gente? Em vez dessa agenda residir apenas num computador da Blizzard, ela ficará nos computadores de todos. Todas as transações em maçãs digitais que já aconteceram, de todos os tempos, serão gravadas nessa agenda (que está nos computadores de todos).
Tu não pode adulterá-la. Eu não posso mandar-te mais maçãs digitais do que aquelas que possuo, simplesmente por que elas não sincronizariam com as outras no sistema. Seria um sistema bem difícil de se burlar. Especialmente se o sistema se tornar muito grande.
Além de que, como o sistema não é controlado por nenhuma pessoa, então eu sei que não há ninguém que possa decidir dar a si mesmo mais maçãs digitais. As regras do sistema foram definidas desde o princípio. O código e as regras são abertos (open-source) – como no software usado nos telefones Android. Ou tipo a enciclopédia Wikipédia, que está lá para que os mais sábios possam contribuir, manter, melhorar e verificar.
Tu também podes participar dessa rede e também e atualizar a agenda de pagamentos para garantir que tudo funcione. Pelo trabalho, poderias ganhar 25 maçãs digitais como recompensa. Aliás, essa é a única maneira de se criar mais maçãs digitais no sistema.

Eu simplifiquei bastante

… mas esse sistema que eu expliquei, existe. É chamado de protocolo Bitcoin (repara que quando nos referimos ao protocolo, sistema ou rede, usamos o “B” maiúsculo). E aquelas maçãs digitais são os “bitcoins” dentro do
sistema (agora quando ele fala de bitcoins como moeda, usamos o “b” minúsculo).
Então, consegues ver o que aconteceu? O que é que a agenda pública de pagamentos permite?
1) O código é aberto, recordas-te? O número total de maçãs foi definido na agenda de pagamentos no início. Eu sei o número exato (de maçãs) que existem. Dentro do sistema, eu sei que elas são limitadas (escassas).
2) Quando eu faço uma troca, eu sei que aquela maçã saiu de minha posse de um modo que se pode certificar, e agora ela é completamente tua. Eu não costumava dizer isso sobre coisas digitais. A maçã será atualizada e verificada pela agenda pública de pagamentos.
3) Por ser uma agenda pública, eu não preciso de um juiz (ou de terceiros) para ter certeza de que eu não enganei, vigarizei, ou tirei outras cópias para mim mesmo, ou enviei maçãs duas  ou três vezes…
Dentro do sistema, a troca de uma maçã digital é agora exatamente como a troca de uma maçã de verdade. Agora o sistema está tão bom que consegue ver uma maçã sair fisicamente da minha mão e cair dentro do teu bolso. E, exatamente como no banco do parque, a troca envolveu apenas duas pessoas. Tu e eu – nós não precisamos de um juiz para ter certeza de que a troca foi válida.
Por outras palavras, as maçãs comportam-se como objetos físicos.
Mas, lembras-te? Continua digital. Nós podemos agora lidar com 1000 maçãs, ou 1 milhão de maçãs, ou mesmo 0.00000001 maçã. Eu posso enviá-las com o clique de um botão e eu ainda posso fazê-las cair dentro do teu bolso mesmo se eu estivesse na Nicarágua e tu estivesses em Nova Iorque.
Eu posso até fazer outras coisas digitais viajarem por cima dessas maçãs digitais! É tudo digital, afinal de contas! No futuro, vai ser, com certeza, possível anexar algum texto ou área de informação digital junto às maçãs – uma notificação digital. Ou talvez eu possa anexar coisas mais importantes: tipo um contrato, ou um certificado de ações, ou uma identidade digital, um filme, uma música, um livro…
Isso é ótimo! E como devemos tratá-las e como vamos estabelecer um preço para essas “maçãs digitais”? Elas são bem úteis, não são?
Bem, há muita gente a discutir esse assunto agora. Há debates entre muita variedade de especialistas de economia, política e entre os programadores.
Não vale a pena dar ouvidos a todos eles. Ainda não chegaram a acordo. Uns são muito espertos e outros mal informados. Uns dizem que o sistema vale muito, outros que não vale nada.
Houve um ano, em 2013, em que uma maçã chegou a custar 1300 dólares. Outros dizem que é ouro digital, e outros dizem que é dinheiro.
Outros dizem que é exatamente como tulipas. Alguns dizem que irá mudar o mundo. Outros que é apenas uma nova mania.
Agora, já sabes mais do que a maioria. Não te distraias. Estas maçãs digitais têm ainda muitos segredos por revelar.


Este artigo foi publicado originalmente no sítio Medium.
Nesta versão livre foram introduzidas ligeiras alterações, sem comprometer o essencial da mensagem.

Fonte: Medium

Publicano no blogue Correio Digital.eu

 

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